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O deputado federal José Medeiros (PODE-MT) protagonizou na tarde desta quinta-feira (25) mais uma confusão na Câmara dos Deputados, exatamente 24 horas depois de agredir verbalmente e tentar atacar fisicamente seu colega Aliel Machado (PSB-PR). Desta vez foi ele que quase foi atacado.
A sorte de Medeiros - que já começa a ser conhecido no Congresso Nacional como “o pitbull” do presidente Jair Bolsonaro - é que a legendária índia Tuíra Kayapó desta vez não estava com seu poderoso facão, com o qual tem enfrentado os poderosos de plantão há pelos menos três décadas. Com o dedo em riste, no lugar do facão, Tuíra foi para cima de Medeiros depois que ele fez aos índios uma proposta indecorosa.
Medeiros defendeu a abertura das terras indígenas aos grandes projetos e econômicos. A proposta dele, que é a do governo Bolsonaro, foi feita em audiência pública requerida pelos índios para tratar de soluções para os problemas dos povos tradicionais. Os indígenas estão em Brasília pelo movimento Acampamento Terra Livre, que acontece tradicionalmente todo mês de abril.
Ao fazer na audiência a defesa de uma das propostas mais cruéis contra a sobrevivência dos indígenas, José Medeiros provocou a indignação de todos e a ira da índia Tuíra Kayapó, que é uma das mais aguerridas lideranças dos povos indígenas. “Medeiros foi um provocador e demonstrou muita insensibilidade”, afirmou um deputado que preferiu não se identificar “para não comprar briga com ele”.
A posição intimidada do deputado demostra o temor que até os colegas de Medeiros estão tendo em relação a ele, depois da tentativa de agressão de Aliel Machado. O deputado mato-grossense, que outrora fora um e jovem e doce intelectual de esquerda, que preferiu combater ideias com seus saborosos artigos, agora se transformou num bate-pau.
Primeiro como senador, se aliando aos mais reacionários no Congresso Nacional, contribuindo para a derrubada da ex-presidente Dilma e sendo um dos homens na linha de frente de Michel Temer no Senado, com seus discursos controversos e violentos contra a esquerda e, em especial, o PT. Agora e ganhou o apelido de “pitbull do Jair Bolsonaro na Câmara”.
Diferentemente do episódio com o deputado paranaense, ocorrido na quarta-feira (24), quando Medeiros, conforme mostram várias imagens (fotos e vídeos), foi com unhas e dentes para cima de Aliel Machado, desta vez Medeiros ficou pianinho, quietinho, ouvido o veemente protesto da índia Tuíra, sem lógico fazer suas conhecidas caras e bocas.
Confira o vídeo mais abaixo
Mas não foi apenas Medeiros o personagem triste e insensível daquela tarde. Os indígenas esperavam receber na Câmara a ministra da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, cuja pasta está ligada atualmente da Fundação Nacional do Índio. Mas ela não foi e mandou como seu representante o chefe de gabinete da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Davi Calazans.
Ao contrário de Medeiros, Calazans não foi veementemente hostilizado, e não teve a índia Tuíra em seu encalço, mas recebeu sucessivas e sonoras vaias. A maior delas foi quando ele defendeu o “integracionismo”. Esta outra proposta indecorosa é referência às tentativas do antigo regime militar de obrigar os indígenas aceitarem viver de acordo com a cultura branca. Esta política, prevista no Estatuto do Índio, de 1973, auge do período mais duro da ditadura, só foi desmantelada com a Constituição Federal de 1988. No lugar de Tuíra, que reagiu contra o pronunciamento de Calazans foi Sônia Guajajara, coordenadora da Abip (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), que contestou esta e outras propostas que podem levar a dizimação dos índios. Ela contou ainda que o presidente Jair Bolsonaro, ao contrário de mandatários anteriores, se negou a receber a Abip, alegando só receberia entidades indígenas com CNPJ.
Há exatos 30 anos a índia Tuíra protagonizou uma cena que correu o mundo e se transformou num ícone da resistência indígena contra as ameaças à sua cultura e territórios. Em 1989, a Eletronorte convocou uma audiência pública para discutir a construção da usina hidrelétrica que, segundo os índios da região e o movimento ambientalista, causaria um grande impacto ambiental.
A usina atendia pelo nome de Belo Monte-Kararaô, na época chamada apenas de Usina Kararaô. Mas se o primeiro nome lhe remete a alguma lembrança, você está certo, é ela mesma: a polêmica usina de Belo Monte, que, sobretudo durante os governos de Lula e Dilma, foi muito combatida. Nos últimos 15 anos a usina de Belo Monte havia se tornado alvo de protestos Brasil e mundo afora.
Mas há 30 décadas eram apenas os índios e ambientalistas que estava à frente da luta contra a hidrelétrica, localizada no rio Xingu, próximo a Altamira, no Pará. Hoje a obra é do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), criado nos governos petistas. Naquela época a construção recebia na época financiamento do Banco Mundial.
Durante a audiência, enquanto os guerreiros caiapós gritavam “Kararaô vai afogar nossos filhos!”, a índia Tuíra, mulher forte, inteligente e completamente indignada, tomou a iniciativa, avançou para cima do então presidente da Eletronorte, José Muniz Lopes, e o admoestou encostando a lâmina do facão em seu rosto. Falou, em sua língua, dos males que o progresso mal projetado pode trazer aos filhos da terra. O fato foi documentado e o mundo inteiro o assistiu e tomou partido daquela mulher guerreira.
Essa ação contribuiu para interromper o projeto da usina durante dez anos e também fez com que o Banco Mundial suspendesse o financiamento dessa construção. Agora, as obras estão lá. Os projetos iniciais foram totalmente alterados e a ideia é causar menos impacto possível, inclusive preservando as áreas indígenas. Os 25 bilhões orçados inicialmente já beiram os 40 e a polêmica continua.